Amélia Loja: Bolonha: que pedagogia?

Amélia Loja: Bolonha: que pedagogia?
Vice-Presidente da Direcção do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESUP) (Portugal)

A Declaração de Bolonha enuncia o grande objectivo de criação de um espaço europeu de ensino superior, incentivando e facilitando dessa forma a mobilidade dos cidadãos no espaço comunitário.

Indissociável da sociedade de informação em que vivemos, esta declaração é catalizadora de um paradigma de ensino e de pedagogia centrado no aluno enquanto receptor activo de conhecimento e transformador do mesmo.

Um espaço global coerentemente articulado, parece ser de facto a chave para a competitividade numa sociedade em que a necessidade de competências ao nível da análise e da síntese de dados complexos, se alia à indispensável capacidade de adaptação e da criação de novas soluções.

Educar para esta realidade em constante mutação, na qual, técnicas mais especializadas têm um horizonte temporal de validade cada vez mais limitado, implica certamente redefinir as funções discente e docente. Uma estratégia parece ser indispensável e transversal a qualquer que seja a política a seguir: a adopção de comportamentos mais activos.

Face a uma redução substancial do número de horas em sala de aula, decorrente deste novo modelo de ensino, é esperado um aumento do número de horas de contacto professor-aluno, e uma sinergia mais efectiva. A sua interacção ultrapassará a mera constatação da correcção ou incorrecção de uma dada solução. Passará a ser uma interacção exploratória, crítica, construtora, componente de relevo num processo de desenvolvimento que se quer mútuo.

O sucesso deste modelo, será também função da qualidade e da acessibilidade a novas tecnologias de informação, designadamente a “ferramentas” de e-learning. Apesar destas não se substituírem ao exercício reflexivo de conceptualização e de compreensão multidisciplinar dos fenómenos, é um facto inegável que o complementam.

Consequência de tudo isto, Bolonha encerra novos desafios ao nível da relação pedagógica que se estabelece entre professor e aluno. Talvez seja quase unânime dizer que seria desejável a existência de uma formação pedagógica/sociológica para professores do ensino superior. Não sobre “técnicas de gestão da imagem do professor em sala de aula”, mas muito provavelmente sobre interacção social, sobre compreensão de processos de grupo, sobre alteração de comportamentos, etc..

Contudo isto só vem colocar questões adicionais: Quem financiaria esta formação? Seria mais um item numa qualquer grelha de classificação? Quanto valeria um curso de formação pedagógica? Seriam acumuláveis esses cursos? Como seria aferido o seu impacto? Que consequências face a esse impacto? Quem ministraria essa formação? Não sendo intenção dar aqui resposta a estas interrogações, será no entanto de manifestar o desejo de que a preocupação com a Pedagogia no ensino superior, não seja mero pretexto para criar e satisfazer nichos de mercado de formação, ou pelo menos não se reduza a isso.

Gostaríamos que Bolonha fosse um sucesso. Disso depende somente a real importância que soubermos dar à necessidade de nos envolvermos enquanto País, neste projecto. Integrar um espaço europeu de ensino superior implica uma descentralização do processo educativo não só para o aluno, mas também para as instituições e para o próprio Estado, cuja responsabilidade estratégica na garantia de recursos não pode ser ignorada.

A Declaração de Bolonha implica um verdadeiro investimento na educação enquanto bem transnacional. Por cá, esse investimento passaria no essencial pelo eficaz aproveitamento dos recursos já existentes. Passaria por não enviar para o desemprego, docentes altamente qualificados, em cuja formação avançada os mesmos e o Estado investiram durante anos.

Passaria pelo não aproveitamento da precariedade dos vínculos da grande maioria dos docentes, para redução imediata de despesas (e de proveitos de elevado valor, a curtíssimo prazo).

Poderia eventualmente passar por repensar a duração dos cursos superiores, mas não de forma aparentemente alheia a todo o sistema educativo a montante.

Será que deveria passar por uma “quase” re-nomeação de ciclos para permitir um menor financiamento do seu conjunto?

Deveria passar sem qualquer dúvida, por medidas de combate ao abandono e ao insucesso, que mesmo no ensino superior continuam a ser lamentavelmente elevadas. Passaria por um real acompanhamento dos alunos. A resposta à pergunta: “Bolonha - Que pedagogia?” deveria ser tão somente “A Bolonha da pedagogia do conhecimento e da formação do indivíduo como um todo”.

Diário Económico, 05/07/05