Lula Miranda: O dogma do mercado

Lula Miranda: O dogma do mercado

O mercado vem adquirindo características, qualidades e comportamentos mais próprios dos humanos. As pessoas fazem consultas ao “mercado”. O “mercado” fica agitado, confuso, volúvel, febril, assustado. O “mercado” desagrada-se ou agrada-se de certas medidas tomadas.

Antigamente, num tempo remoto em que muitos dos que hoje lêem essas mal traçadas linhas sequer tinham nascido, usava-se muito uma frase que era quase um “cacoete intelectual”, um modismo retórico, uma espécie de “discurso-muleta” que assim sentenciava: “o homem é um produto do meio”. Era a expressão máxima do determinismo. E estava encerrada a discussão. Hoje, fala-se que a cultura, as artes (a literatura, a música etc), a política, a comunicação (o jornalismo se enquadra aqui nessa rubrica), o amor, a moda, a economia (ah, a economia!) a vida, enfim, tudo é fruto do mercado, tudo é por ele determinado. Portanto, também essa crônica (metida a ensaio) que você agora lê, é fruto do tal. Mas, afinal de contas, que(m) diabos é esse tal mercado? Poder-se-ia falar que hoje vivemos um determinismo de mercado, ou mercantil?

Ainda na tenra juventude, lá pela década de setenta, com a leitura de Marx, aprendi algo sobre um outro “determinismo”, um tal de materialismo histórico que, mais ou menos, grosso modo, pelo que me lembro, queria dizer que as relações econômicas determinavam as relações humanas, as relações numa sociedade (o que não deixa de ser uma vertente da verdade, mas não a única). Algo como um determinismo econômico, digamos assim. Em seguida, já na faculdade de economia, aprendi que a economia, que o(s) mercado(s) era(m) regidos basicamente pela lei da oferta e da procura. Essa lei, todo o mundo sabe mais ou menos como é que é, qual é o seu postulado.

Conclusão preliminar, empírica: economia e mercado são mais ou menos a mesma coisa, a depender da ocasião, do nível de abstração e do gosto do freguês. Mas não seriam exatamente sinônimos – não é certo? Não exatamente. Esses duas “entes”, por assim dizer, são, no mínimo, parentes muito próximas e estão, ambas, portanto, imbricadas, subjugadas e vinculadas à tal lei da oferta e da procura. Economia a gente sabe o que é, até de ouvir falar, pelo senso comum. É um lance mais geral, abrangente. Algo como um conjunto, uma associação de mercados. Mas e a definição de mercado? Ou mercados, no plural. Sei que mercado, em sua definição de origem, é um determinado “locus” (desculpe o latinório, que pode ser confundido com pseudo-erudição) onde se realizam trocas, relações comerciais. Sei... O que nos conduziria aqui a uma conclusão “definitiva”: ECONOMIA = MERCADO(S) = VIDA.

Então, parece-me correto deduzir, o atual determinismo de mercado é uma “evolução”, um aperfeiçoamento, ou algo nesse sentido, do velho materialismo histórico. Uma sua “radicalização”. Estou correto? Sim, parece que sim. Sem perder a ironia e o cininsmo jamais, parece que agora, seguindo essa linha de raciocínio, estamos conseguindo chegar a algum lugar, ou a lugar nenhum, se assim preferir (um “não-lugar”): a própria vida, enquanto relações entre humanos (sim, porque há vida além dos humanos), seria determinada pelo mercado.

O problema é que a definição de mercado, o conceito de mercado, tornou-se algo por demais elástico e amplo. Tudo é o mercado. Ele é desde um segmento da atividade econômica, como, por exemplo, o mercado de ouro, de soja ou o de ações, e até um não sei o quê, abstrato, difuso. Como também, em termos, digamos, microeconômicos, é aquele local em que fazemos compras, seja o “mercadinho”, o armazém , ou a feira ou “sacolão” (para os que vivem em São Paulo) – e até mesmo o famoso mercado de pulgas. O mercado (que talvez ficasse melhor grafado com maiúscula: Mercado) é, na realidade, muitas vezes, quase sempre, uma abstração, um fantasma.

O mercado, inclusive, vem adquirindo características, qualidades e comportamentos mais próprios dos humanos (e, em alguns casos, até impróprios, pois desumanos). As pessoas fazem consultas ao “mercado”. O “mercado” fica agitado, confuso, volúvel, febril, assustado. O “mercado” por vezes se desagrada ou se agrada de certas medidas tomadas. Medidas essas que são tomadas geralmente pelo governo,é claro, mas também por eles, pelos próprios “mercados”, essa entidade autônoma, e que, parece, tem vida própria. Cáspita!

Ah, o governo! Esse é, a se depreender do que dizem os jornais e os “especialistas” da TV (geralmente jovens inexperientes que trabalham em bancos ou corretoras), hoje, um verdadeiro escravo dos mercados (sim, a essa altura ele já assumiu definitivamente o seu “ser” plural “mercados”). O governo deve mesmo ser servil ao mercado?

A própria economia teria tornado-se escrava do mercado. Mas como! Se a economia, como vimos, é um conjunto de mercados!? Será que os mercados estão fazendo uma espécie de motim, de revolução nos intestinos da economia? Tsc... Tsc... Desse motim, por certo, há de vir o caos.

Sim, bem lembrado! Os mercados também se arvoram o poder de eleger candidatos e determinar candidaturas. Lembra do “É Serra ou o caos” do George Soros? Tá aí! Soros é um bom exemplo de mercado. Na verdade, um exemplo de um homem que se configura, só ele, num “mercado”, a personificação do mercado. Estamos nos entendendo? Você ainda está aí seguindo a leitura? Ah, bom.

Os tais “mercados”, quando aparecem no noticiário da TV, ou mesmo nos jornais (nunca vi tanta manchete louvando o “deus” mercado!), muitas vezes, quase sempre, são, na verdade, repito, apenas jovens imberbes recém saídos das faculdades de economia, que trabalham em bancos de investimentos e/ou operam nas mesas de câmbio de instituições financeiras. E que fazem pose na TV (apenas pose) de saber tudo sobre o(s) tais “mercado(s)”. Mas esses jovens, de fato, sabem muito pouco. Eles apenas sabem que têm que ganhar bastante dinheiro para os seus patrões e assim, quem sabe, manter seus empregos e “subir na vida” – o que não é nenhum pecado. O “deus” mercado pode estar também na voz de “experientes” e graduados economistas quase sempre a serviço da vaidade e do cinismo próprios. É, como se pode ver, mais ou menos como pedir para a raposa cuidar com o devido zelo das pobres galinhas.

Portanto, meus amigos (inclusive, os amigos que estão no governo), não devemos dar tanta importância assim ao estresse e nervosismo perenes desse tal mercado, suas ameaças e chantagens. Não dêem tanta atenção e importância a esse sobe e desce do risco Brasil, do dólar, da bolsa, manchete de todos os dias nos jornais – hoje até que mais ou menos estável. Jornais estes que, alguns, os mais inocentes e crédulos, ainda não sabem o por quê, são meros divulgadores e propagadores desse “humores” dos tais mercados. Muitas vezes (na verdade, quase sempre) esses tais “mercados” são apenas um mero joguete de interesses de alguns especuladores espertalhões, tal qual George Soros ou os clientes do banco JP Morgan, por exemplo, querendo valorizar os seus ativos no mercado (ativo aqui pode ser entendido, vocês sabem, como dólar, ou um título qualquer da dívida, uma ação, esses lances de... mercado). Muitas vezes, esse tal entidade, o “mercado”, é apenas uma fantasia assombrada, um “bicho-papão” criado para nos causar temor, pobres crianças indefesas. Ou apenas mais um artifício de alguns homens querendo, como de hábito, subjugar outros homens.

Mas o mercado, meus caros amigos, entenda-se bem, esse tal “mercado” que eles usam para nos subjugar, não passa, quase sempre, de mera mentira e manipulação a serviço de certos interesses. Mera mentira e manipulação.

Carta Maior, 18/01/07