Antom Fente Parada: Sobre o Frente Único e o papel do PSOE na II Restauraçom bourbónica

Imaxe de O Garcia do Outeiro

Antom Fente Parada: Sobre o Frente Único e o papel do PSOE na II Restauraçom bourbónica

Na imagem, 1º de maio de 1936 em Monforte de Lemos

Na imagem 1º de maio de 1936 em Monforte de Lemos.

Denominamos II Restauraçom bourbónica ao regime que se inicia em 1975, quer dizer à transiçom cozinhada desde arriba em que se instalou definitivamente a monarquia entronada polo fascismo e um sistema bipartidista a semelhança do mundo anglo-saxom que evitara o perigoso "pluralismo" partidário da II Respública e que retomara os piares que Cánovas del Castillo estabelecera para a I Restauraçom bourbónica (que também pugera fim à I República com o golpe de estado de Pavia nas Cortes): afastamento do exército da política (ainda que o seu papel no 23-f foi fundamental para o "café para todos", a legitimaçom da monarquia e a recentralizaçom e involuçom pilotada desde o binómio político-mediatico que veu ocupar o papel do caciquismo da I Restauraçom, agás no interior da Galiza onde os dous sistemas convivem-), estabelecemento do "turnismo" entre Cánovas e Sagasta ou Canalejas e Dato (hoje Felipe González e Aznar ou Zapatero e Rajoy)[1].

Pois bem, esta II Restauraçom bourbónica entrou já definitivamente num período onde até os mais elementares indícios de soberania e de democracia formal fôrom violados e onde o seu texto sagrado e legitimador, a Constituiçom de 1978 foi na prática suspendida e esfarelada: direito ao trabalho, à vivenda digna, controlo público dos sectores económicos requeridos para o interesse geral... As políticas ultraliberais abraçadas primeiro polo social-liberalismo do PSOE e logo sem rubor polo PP viram completar-se até incluir-se nos casos clássicos de shock aplicados em Chile, Argentina, Bolívia, Polínia, Rússia, etc. desde a década de setenta do passado século. 

A necessária reconstruçom da esquerda tem que volta pular polo frente único, mas xebrando bem o que é esquerda do que é o mal menor de que Gramsci falava. Precisamente, há agora praticamente oitenta anos (concretamente o 27 de novembro), o histórico dirigente do POUM, Andreu Nin, escrevia um artigo assinado em Barcelona e que aparecia em dezembro no nº7 de Comunismo

A selecçom dalgumhas passegens deste artigo, intitulado "La situación política, el peligro fascista y la necesidad del frente único del proletariado" resulta quando menos "chocante" nas postrimerias da chegada dum descarnado totalitarismo que afundará na miséria e na opresom a classe operária da Galiza e do Estado espanhol. Também é um texto lúcido para vermos qual é o papel que jogárom Zapatero e o PSOE quando menos na última legislatura e porque a mídia está fazendo um jogo mal disimulado para que o PSOE "aguante o tipo" e impida a irruçom de forças à esquerda que sejam algo mais que testimunhais. Vejamos pois o que Nin afirmava há oitenta anos e que deveriam ler os siareiros do "radical" e "esquerdista" Alfredo Pérez Rubalcaba (que lho perguntem a militantes da esquerda real como os do Bildu):

As ilusons democráticas som muito vivas entre as massas pequeno-burguesas e umha grande parte da classe operária. A burguesia tem necessidade de manter temporalmente  estas ilusons servindo-se dumha força política que nom esteja ainda completamente desacreditada entre as massas e que pola sua significaçom nominal represente umha garantia de radicalismo. Esta força política é o Partido Socialista (...). Este nom faria mais que continuar com a política da burguesia, e o Partido Socialista desacreditaria-se perante os olhos das massas trabalhadoras. (...) Contribuiriam para manter as ilusons democráticas das massas e dariam a possibilidade à burguesia de consolidar definitivamente as suas posiçons e pretarar, após da mampara socialista, umha auténtica ditadura fascista.

Lerroux, numha entrevista que lhe fixo um redactor do jornal reaccionário de Madrid, Ahora, exprime o seu convencemento de que os socialisas no poder, "longe de serem umha dificuldade", seriam "umha prudente colaboraçom" (...): "Yo  puedo asegurar - di- que estoy viendo realizada  la profecía que hice durante tantos años cuando anunciaba - en opinión de algunos enfáticamente-: 'Yo gobernaré'. Ahora puedo decir que yo estoy gobernando, porque una cosa es el gobierno y otra cosa es el poder. Se puede ser poder y no gobernar. Se puede ser gobierno y no ser poder. Yo gobierno y no soy poder.
Lerroux é o representante da grande burguesia, o Miliukov espanhol. Que nom o esqueçam os trabalhadores. 
[...]
A pequena burguesia urbana e agrária constitui a imensa maioria da populaçom. Polo papel económico que desenvolve na vida económica do país - dependencia a respeito do grande capital- essa classe é incapaz de ter umha política própria e vacila constamente entre a grande burguesia e o proletariado. (...) apoiou de facto a ditadura de Primo de Rivera. (...) Com a queda da monarquia e a proclamaçom da República, a pequena burguesia deu renda solta as suas ilusons democráticas e seguiu, cheia de esperanças, aos demagogos da esquerda. (...) E essas grandes massas flutuantes e indecisas verám-se irresistivelmente atraídas pola classe social que lhes ofereça um programa claro e concreto e a decisom inquebrantável de levá-lo à prática. Essa classe nom pode ser mais que a grande burguesia ou o proletariado.
A grande burguesia, esse programa tem-no: aplastamento das organizaçons operárias; consolidaçom, polo ferro e polo fogo, da dominaçom do capital. (...) Nada mais doado que atrair às massas pequno-burguesas, decepcionadas, com esse programa, convenientemente adubado com umha boa dose de demagogia.
Ao proletariado oferece-se-lhe umha ocasiom única para dar a batalha definitiva à burguesia e tomar o poder. As circunstáncias objectivas nom podem ser mais favoráveis neste sentido. Porém, subjectivamente, está desarmado. Sindicalmente está dividido; os dirigentes da UGT colaboram abertamente com a burguesia, e os da CNT, ou caim no reformismo que nom tem nada que invejar ao de Largo Caballero e companhia (Grupo Peiró-Pestaña), ou um aventureirismo (a FAI) que nom pode conduzir mais que a um putsch sanguento e ermo. (...) Falha, sobretodo, um grande partido comunista, sem o qual a vitória é impossível.
A crise capitalista agrava-se de dia para dia. (...) Em períodos revolucionários como o que vivemos, os acontecimentos desenvolvem-se com extraordinária rapidez. Todavia, a consciência revolucionária das massas progride, destarte, em proporçom geométrica. O que fai falha é um partido que concrete em fórmulas precisas essa consciência revolucionária e organice as massas para a acçom. Este partido nom existe ainda, embora haja potencialmente um intenso espírito comunista no país. Há que dar-lhe à classe operária esse instrumento indispensável para a sua emancipaçom. Há que forjar um grande partido revolucionário do proletariado, unificando todas as forças comunistas e dotando-as dum programa claro e preciso.
[...]
A experiência destes últimos anos demonstra que (...) com conferências 

Oitenta anos depois, a leitura destes trechos nom precisa, acho eu, maior comentário e dele podem extraer-se liçons também para o soberanismo galego e para a esquerda estatal em geral. Que cada quem todavia tire as suas próprias, pois a fim de tempo podemos rememorar aquela máxima do Cícero "oh tempos, oh costumes!" quando transitamos por um tempos histórico tam extranho. Sweezy após a II Grande Guerra (1939-1945) já indicara a dificuldade que temos os humanos para perceber o tempo vital como tempo histórico e esta análise foi-se tornando cada vez mais certeira ao passo que o cenário debujado por George Orwell  no livro 1984. O grande irmao vigia-te se aproxima mais e mais sem que se afaste na esquerda galega um outro panorama próximo ao seu Homenagem a Catalunya. Hogano, nesta utupia reaccionária ultraliberal os cordos som loucos ou pesimistas e socialistas ou radicais; os loucos som expertos, mesurados e técnicos; os bons-homens som ladrons, "especuladólares" e banqueiros; e os homens-livres (o que classicamente se conhecia como cidadaos) som outoniço pacido polo consumismo desenfreado e a idiócia. Aguardemos entom que algum dia, e mália a todo, o mundo ainda tenha lugar para os que agradeçam a existência dos loucos.

Cumpre lembrar que a primeira transformaçom do totalitarismo ultraliberal dentro dos confins dumha democracia formal, com um calado muito superior ao de Thatcher ou Reagan,  se deu em Bolívia a partir de 1985 e da mao dum governo de centro-esquerda. Por outras palavras, a terápia do shock (ou terápia de choque como Rajoy promete) pudo por fim safar-se do fedor a ditadura e tortura, mas em Bolívia desenvolveu-se igualmente um "pinochetismo económico" sob a hégira do sócio-liberalismo e recorrendo a estados de sítio e muitas outras medidas anti-democráticas e anti-constitucionais.

A terápia de shock que se implementou em Bolívia evidenciou que a cruzada do livre mercado e a mercantilizaçom de absolutamente todo, incluída como nom a auga, podia aplicar-se dum jeito totalitário, mas dando-lhe apariência democrática polo simples feito de existir um governo amparado numhas eleiçons prévias, com idependência do grao de direitos civis banidos, do incuprimento do programa eleitoral ou de que as decisons as tomem instituiçons de governança blobal (FMI, Banco Mundial, Banco Central Europeu...) que para nada estám submetidas ao controlo demcocrático da cidadania. Também é central o papel jogado pola mídia à hora de modelar a opiniom pública que em Eurolándia aponta cada vez mais e mais contra os seus próprios interesses entregando o voto, como um grande Fausto colectivo, aos fundamentalistas da teologia ultraliberal.

Do experimento de Bolívia, e doutros muitos do mesmo teor, importou-se umha caste de totalitarismo dirigível pola populaçom e de apariência democrática, um darwinismo social militarizado que herda a fasquia do fascismo histórico. Trata-se de pequenos e contínuos 23-f, quando nom 18 de julhos; golpes de estado  que, em definitiva, substituem o carácter militar polo civil, e o uniforme militar polo fato impoluto e a garavata de políticos e economistas que falam em nome dumha "democracia" cada vez mais "orgánica" [2] (de aí o fedor que produze a sua descomposiçom), fraudulenta e fascista.

É tempo, pois, de caminharmos para o frente único, a começar por exigir (o que ainda fica de ESQUERDA REAL) umha CREBA DEMOCRÁTICA e a recuperaçom da SOBERANIA para Galiza, assim como para o Estado espanhol. Isso, no marco jurídico-político da II Restauraçom bourbónica nom é possível, nem com autonomia, nem com federalismo nem com qualquer um outro edulcorante. O regimem apodrece e a esquerda institucional nom é quem de desmarcar-se da sua podredume... o descrédito perante as massas e o tempo perdido farám que a acumulaçom de forças seja muito difícil e lenta... talvez fatal.

NOTAS

[1] No livro de Patrícia Sverlo, alcunha que acocha o autêntico nome do seu autor, Un rey golpe a golpe, reflecte-se como por exemplo nas primeiras eleiçons da "democracia" o partido polo que advogava a monarquia, a UCD de Adolfo Suárez, contou com 10.000 milhons de pesetas procedentes de Arábia Saudita através da campanha, petrodólares que este partido conseguiu por mediaçom do rei Juan Carlos I, quem - dito seja de passagem- nunca fixo nada por devolver este empréstimo. Ainda mais literatura existe encol ao apoio, nom só económico, que a CIA e a social-democracia alemanha fornecêrom ao PSOE na "Transiçom", passo necessário para criar umha esquerda domesticada. A deriva do PCE responde, em nossa opiniom, a umha traiçom clássica das elites do aparato face a militáncia mas está pendente ainda umha análise mais pormenorizada... trair as bases e o programa histórico simplesmente pola legalizaçom e o assento no parlamento para Carrillo e alguns mais? Duvitável quando menos.

[2] Democracia orgánica  era a definiçom que o regime fascista encabeçado polo banqueiro March  (a banca March obtivo os melhores resultados de todos os bancos espanhóis nas recentes provas de stress) e Francisco Franco, para o seu regime assassino. A perversom da democracia, dumha ou outra maneira é umha constante em todo o século XX.